Cotidiano

Outros Escritos - A ABL

A Academia Brasileira de Letras deveria ser uma instituição, como o próprio nome diz, representativa dos maiores escritores do país. Dona de uma bela sede, cópia do Petit Trianon de Versalhes que o governo francês doou para a ABL em 1923, a Academia deveria ser mais cuidadosa com os nomes que coloca ali.

Rui Barbosa e Machado de Assis, dois de seus fundadores, devem estar se revirando nas cadeiras que hoje patrocinam ao verem as imortais piadas ali sentadas. Pessoas sem nenhuma relevância como políticos, médicos, militares, jornalistas sem mais o que fazer e até um cineasta estão hoje na tão desejada galeria dos imortais da ABL, em detrimento de outros nomes maiúsculos como Drummond, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Cecília Meirelles e tantos outros que não tiveram o poder de serem agraciados.
Nem a indicação de Gerardo Melo Mourão ao Prêmio Nobel foi suficiente para a imortalidade na ABL.

Curiosamente, os preteridos da Academia são mais lembrados que a maioria dos imortais, de quem não se sabe nem o nome e, muito menos, um livro que tenham escrito. Até Santos Dumont foi eleito para a Academia sem ter nenhuma afinidade com a escrita.

Como sempre acontece quando morre um "imortal", rapidamente iniciam-se as negociações para ocupar a cadeira vaga deixada por ele e, invariavelmente, os candidatos não são tão representativos da categoria como deveriam ser.

Essa instituição, inspirada na academia francesa, infelizmente tornou-se uma reunião de pessoas sem nenhuma credibilidade, mas com grande poder de influenciar a política nacional. Não passam de marimbondos, que se inflamam quando confrontados.

Apesar dessa falta de critérios, nem todos são indignos da graça dos imortais semi-vivos da ABL. Jorge Amado ocupou merecidamente a cadeira de número 23, de 1961 até sua morte em 2001, sendo sucedido por ninguém menos que Zélia Gattai, sua esposa e mais nada além disso, que a academia escorregou para lá como forma de homenagear o falecido. Imagine o que diria José de Alencar ao ver Zélia se apossando de sua cadeira número 23. Ao que tudo indica, não é apenas uma questão de ausência de critério na escolha, mas também nenhum requisito.

E nem se fale dos indicados à sucessão: de jogadores de futebol a mártires da luta armada. Aí já seria demais.
Maria Antonieta, última inquilina do Petit francês, morreu decapitada pela Revolução Francesa. Os moradores do "nosso" Petit mereciam o mesmo destino.

 

NE: "Outros Escritos", 2005, é uma obra póstuma de Clarice Lispector, imortal por merecimento e não por uma cadeira.

 


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